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segunda-feira, 30 de maio de 2011

MUAMMAR KADAFI: AS FACES DE UM DITADOR

A FORTUNA
Em 40 anos, Kadafi acumulou patrimônio bilionário e difícil de calcular
Acredita-se que Kadafi nunca tenha separado as finanças públicas das privadas em quatro décadas de poder. O patrimônio do ditador é desconhecido, mas não deve ser inferior a 80 bilhões de dólares.

Há muita especulação em torno da fortuna acumulada pela família de Muammar Kadafi. O patrimônio do ditador líbio – que governa há 42 anos um dos países mais ricos em petróleo – é desconhecido, assim como o dinheiro que ele mantém no exterior.

Em (22/02/2011), o jornal britânico The Guardian afirmou que existe uma "lacuna de bilhões" nas contas públicas da Líbia quando se comparam os gastos do Estado com os rendimentos oriundos da exploração de petróleo e gás. A publicação acredita que os petrodólares não gastos pelo governo compõem a maior parte do patrimônio de Kadafi.

Mas o jornal não sabe calcular o valor exato desse patrimônio. Segundo uma fonte não identificada, a família Kadafi teria bilhões de dólares numa conta secreta em Dubai e provavelmente também em outros países do Golfo Pérsico e do sudeste asiático.

Por meio dos despachos diplomáticos norte-americanos divulgados pelo WikiLeaks, o jornal Financial Times diz ter descoberto que Kadafi construiu um "império de dinheiro", pelo qual os filhos dele estariam brigando.

A inexistência de dados sobre o patrimônio do ditador se deve principalmente ao fato de, na Líbia, as finanças públicas nem sempre terem sido separadas do patrimônio pessoal de Kadafi. Segundo o cientista político líbio Assanoussi Albseikri, o líder e sua família lidam com o dinheiro do Estado como se fosse patrimônio deles.

"Os altos funcionários do governo são nomeados diretamente pelo próprio Kadafi. Foi o que ele fez, por exemplo, com o chefe do Banco Central, que é absolutamente fiel a ele", detalha Albseikri.

O especialista diz ainda que os funcionários são diretamente controlados por Kadafi, e que são proibidos de questionar o que é feito com o dinheiro público. "Eles são basicamente cúmplices de Kadafi, que controla a riqueza do país e decide quanto será gasto e onde", diz Albseikri.

Riqueza sem fim
A maneira de governar de Kadafi leva o Financial Times a questionar se algum dia as finanças do presidente líbio e as do Estado chegaram a ser registradas de forma separada.

A maior parte do dinheiro da Líbia vem da exploração de gás e petróleo. Em 2010, o país produziu 2,6 milhões de barris de petróleo por dia, o que corresponde a 2% da produção mundial diária. Os ingressos com o negócio chegaram a 45 bilhões de dólares no ano passado. Segundo informações da National Oil Corporation, no ano anterior a Líbia havia produzido 1,6 milhão de barris por dia e arrecadado 35 bilhões de dólares.

O advogado líbio Alhadi Schallouf, membro do Tribunal Internacional de Haia, calcula que os ganhos do Estado com petróleo e gás somam algumas centenas de bilhões de dólares desde 1969 e que a metade dessa quantia teria ido direto para as contas bancárias de Kadafi e seus filhos.

Segundo Schallouf, Kadafi teria uma conta extra para o dinheiro proveniente do petróleo. "Os rumores de que Kadafi teria 82 bilhões de dólares são falsos. Esses números são na verdade dos anos 90. A quantia real deve muito maior."

Mas o oposicionista líbio Mohammad Abdelmalek calcula que o patrimônio do ditador chegue a 80 bilhões de dólares, e o da família dele, a 150 bilhões. "Os ingressos do Estado vão direto para os bolsos da família. O cidadão comum nunca ganhou nada", afirma Abdelmalek.

É mentira a afirmação de Kadafi de que a receita do Estado seria empregada no bem-estar da população, afirma Abdelmalek. Segundo Schallouf, em vez de usar o dinheiro em benefício da população, Kadafi financiou mercenários e exércitos para proteger o próprio regime.

Dinheiro para o terrorismo
Segundo observadores, os mercenários africanos que provavelmente foram contratados por Kadafi para combater os manifestantes são ligados a grupos rebeldes do continente. "Kadafi já apoiou muitos grupos terroristas, como o IRA, na Irlanda, e outros grupos na Itália e no Chade", afirma Adbelmalek.

Oposicionistas na Líbia exigem agora o congelamento das contas de Kadafi no exterior, como aconteceu com os ex-ditadores da Tunísia e do Egito.

A Líbia é a terceira maior produtora de petróleo da África. As reservas do país são estimadas em 45 bilhões de barris de petróleo e 1,5 trilhão de metros cúbicos de gás – a quarta maior do continente.

Em 2006, Kadafi fundou a Autoridade Líbia de Investimentos (LIA), uma espécie de fundo estatal que, até agora, teria investido mais de 60 bilhões de dólares em projetos fora do país. A LIA aplicou dinheiro em bancos, jornais, clubes esportivos e na indústria automobilística.

O The Guardian afirma que a Líbia detém 7,5% do setor bancário italiano, allém de 2,6% da Fiat e 7,5% do clube de futebol Juventus. O próprio Kadafi, segundo o Financial Times, teria investido 21,9 milhões de dólares num hotel em L'Aquila, cidade italiana que sofreu com um forte terremoto em 2009.

A IDEOLOGIA
A Jamairia de Kadafi: um sistema de poder perto do fim

Oficialmente ele não é presidente, mas líder revolucionário: a Jamairia, o tipo de Estado inventado pelo ditador Muammar Kadafi para a Líbia, enfrenta o seu ocaso.

Mais uma vez – talvez pela última – o ditador líbio Muammar Kadafi exibiu, nesta terça-feira (22/02), em seu discurso televisivo, aquela característica mistura de radicalismo, loucura e esperteza simplória a que seu país e o mundo tiveram que se acostumar, nos seus quase 42 anos de regime.

Um dos argumentos centrais era: ele não ocupa um cargo no governo, não é "presidente", mas sim "líder revolucionário". Por isso, não pode renunciar a um posto. Assim, Kadafi apontou mais uma vez para o que um de seus filhos, Saif el-Islam, ventilara, dois dias antes: a Líbia não é o Egito nem a Tunísia. E Kadafi não é um líder como os outros.

A Jamairia
O chefe de Estado mais antigo no poder – independentemente de como ele se veja ou se apresente – é produto de uma antiquíssima sociedade de clãs e tribos. Assim como o era o rei Idris, que Kadafi derrubou em 1969, após 18 anos de reinado. E é, sem dúvida, mérito de Kadafi haver mantido coesa essa sociedade marcada por interesses multifacetados e díspares.

O integrante da pequena tribo kadafa conseguiu isso por meio de alianças e da participação inteligente de outras tribos no poder. Ao mesmo tempo, Kadafi cuidou de posicionar a si próprio e alguns poucos fiéis de primeira hora na supostamente intocável posição de "líderes revolucionários", pela qual os demais ditadores árabes certamente o invejam. Pois eles têm – ou tinham, dependendo do caso – que mudar as leis eleitorais de anos em anos, ou falsificar as eleições, a fim de se manter no poder.

Kadafi jamais precisou se rebaixar a tanto. Em vez disso, ele criou uma nova forma de Estado em 1977, decretando a "liderança das massas" no que chamou de Jamairia, termo cunhado por ele e que significa algo como "república popular". Comitês populares nos mais diversos níveis simulavam uma democracia de base para os 6,3 milhões de líbios. Porém, na realidade, há muito a Líbia se tornara uma ditadura, sem partidos, sem oposição e sem imprensa livre.

Ocaso de um regime
Depois que se distanciou do apoio aberto ao terrorismo, revelando o início de um programa atômico e interrompendo-o, o excêntrico líder passou a circular na Europa, e os Estados Unidos também pareceram aceitá-lo. A situação na própria Líbia aparentemente não interessava a ninguém. Importante era o livre fluxo de petróleo e gás natural, os investimentos no país e a cooperação de Kadafi para conter o afluxo de imigrantes africanos à Europa.

Na política interna, o líder líbio soube diluir a insatisfação crescente dos jovens através de presentes, como a concessão de moradias. Porém nas tribos se adensava uma resistência que, no decorrer dos anos, levou a confrontações armadas e a amplas ondas de prisões.
Diante de uma população de 6,3 milhões, o aparato de segurança mantido por Kadafi é relativamente grande: Forças Armadas, polícia, serviço de segurança e serviço secreto abarcam quase 140 mil pessoas. Com elas, o líder de 68 anos crê poder esmagar a atual revolta dos "ratos e drogados", como depreciativamente denomina os manifestantes.

No momento, contudo, parte das forças de segurança já se distanciou dele. Só assim foi possível Kadafi perder o controle sobre a cidade de Bengasi e a região de Cirenaica, no nordeste do país. Também em outras regiões, integrantes das forças de segurança consideram mudar de lado – um passo que diversos diplomatas e até mesmo os ministros do Interior e da Justiça já deram.

AS RELAÇÕES COM A EUROPA
Alvo de protestos, Kadafi mantém boas relações com europeus
Kadafi e o então presidente da comissão
 Europeia, Romano Prodi 

Por mais de 30 anos, o presidente líbio Muamar Kadafi, que se autointitula um líder revolucionário, foi considerado uma espécie de ovelha negra no cenário político internacional. 

Com provocações aos EUA e à Europa até o limite, ele financiou e conduziu atos terroristas internacionais, inclusive contra a Europa.

No início deste milênio, quando renegou o terrorismo e as armas de destruição em massa, Kadafi foi se tornando cada vez mais aceito nos círculos ocidentais do poder. A Líbia, com suas grandes reservas de petróleo e gás natural, começou, de repente, a se tornar de novo interessante para a Europa. Hoje, aos 68 anos, o chefe de Estado, continua um tanto quanto inconstante e imprevisível, mas passou a ser apreciado especialmente pelo governo italiano, com o qual fecha bons negócios.

Indenização para vítimas do terrorismo
Kadafi costuma amenizar o peso do passado com dinheiro. No início da década, ele pagou 2,8 bilhões de dólares em indenizações às vítimas de dois atentados terroristas a alvos ocidentais: uma discoteca em Berlim e um avião sobre Lockerbie, na Escócia. Em troca, as Nações Unidas esqueceram seus atos terroristas. Os EUA ficaram aliviados quando Kadafi abdicou de armas de destruição em massa, encerrando uma polêmica de décadas. Em 2003, as sanções da ONU contra a Líbia foram suspensas. A União Europeia (UE) fez o mesmo pouco depois.

Em 2004, o então chefe de governo alemão, Gerhard Schröder, visitou o líder líbio em pleno deserto. "Esse país mudou politicamente e isso eu só tenho a saudar", disse o Schröder na época. "É claro que não é nada comparado com o que temos em casa, mas o rumo está certo", completou Schröder. "A comunidade internacional tem interesse em integrar a Líbia", era a mensagem do governo alemão naquele momento. O premiê britânico e o presidente francês também fizeram visitas ao "rei dos reis da África", como Kadafi se autointitularia mais tarde.

Até Bruxelas, com guarda-costas
Em 2004, Kadafi viajou até a sede da UE, em Bruxelas. Dormindo em uma barraca e acompanhado por um séquito de guarda-costas, formado praticamente só por mulheres, ele incomodou seus interlocutores europeus com monólogos sem fim.

Em uma entrevista coletiva, rotulou seu apoio ao terrorismo como luta pela liberdade: "Só fizemos nossa obrigação. Treinamos aqueles que lutavam pela liberdade, para que pudessem alcançá-la. Acreditávamos que era nossa obrigação histórica", relatou ele, acrescentando, contudo, acreditar que essa luta havia chegado ao fim. Para o líder líbio, havia chegado a hora de selar a paz com a Europa e com o mundo.
A UE acertou com a Líbia sua inclusão na aliança dos países mediterrâneos. Especialmente a Itália, país do qual a Líbia havia sido colônia até 1943, tinha grandes interesses nessa aproximação. Na Líbia, há muitas empresas italianas em atividade. Por outro lado, a Líbia também tem participação em vários grupos italianos. A empresa estatal de petróleo Tamoil mantém uma rede de postos de gasolina no sul da Europa. E muitas multinacionais do petróleo atuam ainda hoje na Líbia.

Refugiados do Mediterrâneo
Em 2006, a UE e a Líbia selaram um acordo, segundo o qual as embarcações de refugiados deveriam ser barradas às portas da Europa. Hoje, esse acordo já foi até ampliado e a Líbia detém supostamente 10 mil refugiados em seus acampamentos.

A Itália envia refugiados para a Líbia sem qualquer processo legal. No entanto, a participação da Líbia nessa rejeição dos refugiados não é gratuita: de vez em quando, Kadafi exige 5 bilhões da UE. Caso contrário, ameaça enviar para a Europa, pelo mar, todos os refugiados que mantêm em seu território. De fato, a Líbia já recebeu em torno de 50 bilhões de euros da UE a título de acordos sobre refugiados.

As relações entre a UE e a Líbia tornaram-se ainda melhores quando Kadafi, em 2007, libertou da prisão enfermeiras búlgaras e um médico, detidos injustamente. A UE e a Bulgária pagaram indenizações às supostas vítimas das enfermeiras na Líbia. A mulher do presidente francês, Carla Bruni-Sarkozy, buscou pessoalmente os ex-reféns na Líbia. Poucas semanas mais tarde, seu marido, Nicolas Sarkozy, fecharia diversos negócios com o governo líbio, num valor em torno de 10 bilhões de euros. Entre outros, a França forneceria à Líbia um reator nuclear.

Amizade com a Itália
No ano passado, Kadafi voltou a visitar a Itália mais, quando selou um acordo de amizade que foi criticado. O senador Marco Perduca criticou o silêncio de Roma perante o desrespeito aos direitos humanos na Líbia e a irresponsabilidade do governo ao assinar acordos com um chefe de Estado que há 40 anos ignora os direitos civis em seu país.

A Itália, por sua vez, é em grande parte abastecida de petróleo e gás natural através de um oleoduto da Líbia. Dez por cento das importações deste tipo para a UE vêm da Líbia. Assim, não é de admirar que o premiê italiano, Silvio Berlusconi, se derreta em elogios para Kadafi. Em uma visita no ano de 2009, o chefe de governo italiano chegou a dizer que Kadafi seria uma figura de liderança de grande sabedoria, que saberia avaliar de forma muito realista os grandes conflitos internacionais.

Muamar Kadafi aproveitou sua última vista a Roma, ano passado, para fazer uma palestra sobre o alcorão a algumas jovens selecionadas, tendo recomendado também a adesão da Europa ao islã.

Crítica hesitante
Catherine Ashton, representante diplomática da UE, teve palavras amenas para descrever os atuais protestos na Líbia: "A UE está observando detalhadamente a situação e exige das autoridades garantia para a liberdade de opinião", disse ela. Desde 2008, a UE negocia com a Líbia um acordo de cooperação no setor energético, e nos quesitos migração, tráfego e educação. A Líbia evoluiu bem, diz Stefan Füle, comissário da Política Europeia de Vizinhança, após sua última visita a Trípoli, em outubro de 2010.

Em uma entrevista ao semanário alemão Der Spiegel, Kadafi elogiou a chanceler federal alemã, Angela Merkel, como uma governante determinada, acrescentando que ela seria "mais homem do que mulher". Só com a Suíça é que Kadafi não quer conversa, pois autoridades suíças tentaram investigar negócios ilícitos envolvendo um de seus filhos. A reação do líder líbio foi sugerir a dissolução do país alpino. A crise diplomática entre Trípoli e Berna só foi aplainada a duras penas.
Fonte:DW

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